A Talk with Walter Mesquita
Walter Mesquita was one of the seven photographers for Viva Favela. His base community was Queimados in the Baixada Fluminense area of Rio. Today, he still lives in the Baixada and is the director of the NGO Se Essa Rua Fosse Minha working for the rights of children.
This conversation was carried out in April of 2022 over email between Peter Lucas in New York and Walter Mesquita in Rio.
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Em 2001 a maioria das noticias com o tema favelas e periferias do Rio de Janeiro veiculadas na grande mídia (Radio, TVs, Jornais) eram com ênfase na violência em decorrência do trafico de drogas e isso alimentou uma onda de preconceito e estigma em moradores dessas regiões que se viam, muitas vezes, obrigados a omitirem seus endereços, principalmente nas entrevistas de empregos.
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O Viva Favela já começou tecnológico. Tinha acabado de chegar ao Rio de Janeiro as primeiras câmeras digitais e a fotografia estava, sob protestos de muitos fotógrafos, migrando para a era digital. Havia um misto de desconfiança e ao mesmo tempo muita expectativa com essa nova forma de fotografar.
Éramos cinco fotógrafos e o viva favela tinha 3 câmeras digitais de resolução muito baixa (1 megapixel e 2MB de memoria) que a gente fazia uma escala de revezamento e os outros dois fotografavam com filme ate o projeto conseguir comprar novas câmeras para todos. Era um desafio muito grande fazer imagens do cotidiano nas comunidades com essas câmeras digitais, os recursos eram muito limitados e a qualidade deixava a desejar. Mas a equipe produziu um grande acervo com fotos inéditas e surpreendentes e que mais tarde se transformou em varias exposições nas grandes galerias do Rio de Janeiro.
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Eu ja tinha o costume de fotografar a vida cotidiana em Queimados, nao tinha nenhuma dificuldade quando comecei a fazer os registros para o Viva Favela, porem, a dificuldade que eu encontrava durantes as pautas era que não dava para fazer a reportagem (foto e texto) com pressa. A comunidade queria falar e quase não tinha quem os ouvissem e o viva favela entrava onde nenhuma outra mídia entrava e tinha acesso a lugares e pessoas que outros sequer sabiam de suas existências....as pessoas nos tratavam como amigos e não dava para chegar ate a casa delas sem antes tomar um café e falar de outros assuntos que nada tinha a ver com a pauta.
Por um desejo da equipe de fotógrafos, tivemos a ideia de também acompanhar os correspondentes de textos em outras favelas e assim poder circular com uma certa tranquilidade ao lado do correspondente que também era morador local. Penso que isso foi um grande passo para todos nos do Viva Favela que passou a vivenciar também outras comunidades e aprender com elas.
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O Viva Favela foi pioneiro na experimentação da comunicação no formato de portal de jornalismo comunitário. Pouco tempo depois participei de uma conversa com o fotografo Joao Roberto Ripper e Kita Pedroza, nessa conversa o Ripper apresentou o projeto da Escola de Fotógrafos populares, iniciativa do Observatório de Favelas que tinha a doce ousadia de criar um curso completo de excelência com grandes nomes da fotografia nacional. Ripper convidou os fotógrafos do Viva Favela a participarem desse curso e esse fato contribuiu enormemente para o aprimoramento e profissionalização da nossa equipe.
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No inicio, naturalmente evitávamos falar da violência, pois isso já era amplamente retratada em outras mídias, porem, com o tempo percebemos que tínhamos sim que falar da mesma violência que estava na mídia, porem, sob a ótica de quem vivencia essa realidade...muitas vezes a gente funcionava como um contraponto da noticia. No Viva Favela falávamos principalmente do que nao se via na mídia tradicional: Culinária, arte, cultura, personagens interessantes e curiosidades em geral.
Como fotografo posso dizer que retratei todos os temas que tive vontade. Pois além das reportagens tínhamos a galeria onde a gente fazia nossos temas pessoais.
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No bairro Camarim, em Queimados havia um grande terreno que era utilizado como despejo de lixo por moradores. Era comum ver ratos e baratas por lá. Participei de um grupo que ajudou a articular a vinda de um projeto de Circo escola para ocupar e ressignificar aquele espaço. Quando o terreno foi limpo e feito a terraplanagem surgiram alguns montes de terra e imediatamente diversas crianças das comunidades do entorno passaram a brincar, dar cambalhotas e saltos mostrando seus dons artísticos antes mesmo da construção da escola de circo. Essa fotografia para mim representa exatamente o momento que o espaço deixa de ser ocupado por lixos e ratos e passa a ter a alegria e sorrisos das crianças.
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Seu Rodrigues! Assim ele era carinhosamente chamado por todos nos do Viva Favela. Penso que o Rodrigues Moura deveria ter sido ainda em vida reconhecido como um dos primeiros fotógrafos de favelas do Brasil. Ele chegou muito novo no Complexo do Alemão e já documentava o seu cotidiano, acompanhou o crescimento da região e já fazia ensaios fotográficos com personagens da favela. Eu gostava muito de ouvir suas historias e mergulhar no acervo dele.
Seu Rodrigues, assim como toda equipe do Viva Favela tiveram um papel fundamental para o desbravamento da fotografia comunitária e divulgação de uma favela que ate então era pouco conhecida, uma favela alegre, cheia de cultura e criatividade. Uma favela muito além da violência e trafico de drogas. Nas ultimas conversas que tive com ele estávamos refletindo exatamente sobre esse pioneirismo e a falta de reconhecimento e descaso por nossa historia, fato que o deixava muito triste.
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A nossa primeira exposição foi no Centro cultural Light, estávamos todos empolgados e eu particularmente muito feliz em poder finalmente ver a favela exposta de maneira positiva. Sem duvidas a primeira tem uma importância muito grande para o projeto e na vida de cada um de nos, porem, a que mais me marcou e a que mais eu gostei foi a exposição MORO NA FAVELA. Essa exposição já começa pelo titulo que foi uma ideia de afirmar o orgulho de morar numa região que mesmo com tanto preconceito tem sua beleza, sua criatividade e seus talentos e resistência.
A ideia dessa exposição, entre outras coisas era justamente ser uma espécie de autorretrato da favela. Mostrar a favela para os seus moradores. A exposição era itinerante e ficava cerca de trinta dias nas ruas das comunidades no Rio de Janeiro, se tornando uma intervenção urbana.
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Item descriptioO Viva Favela foi o responsável por mostrar a favela de dentro sob a ótica de seus moradores e isso chamou a atenção de historiadores, pensadores, jornalistas e a opinião publica. Passamos a pautar a mídia e aos poucos percebemos um jornalismo mais ético e a favela retratada sobre outros aspectos além da violência e pobreza.
O surgimento e sucesso do Viva Favela motivou outros grupos, instituições e coletivos a criarem suas mídias e acervos fotográficos. O Correspondente comunitário, termo criado na redação do Viva Favela, acabou sendo utilizado também por outros grupos e ate mesmo pela grande mídia que se espelhou no Viva Favela para criar reportagens feitas por moradores de diferentes regiões supervisionados por jornalistas. Exatamente como era o Viva Favela.